Acordar com os Monges

Acordar com os Monges

Acordar com os Monges

Viajar fora da caixa e da segurança dos pacotes de viagem «all inclusive» é sinónimo de experiências agradáveis, surpresas nem sempre boas, imprevistos e percalços que na altura chegam a provocar momentos de ira, mas que depois se tornam numa bela história para partilhar com amigos… ou não.

Há ainda expectativas que se criam sobre lugares que nos preparamos para visitar e que nos levam a consultar guias, opiniões de quem já lá esteve, que quase nunca coincidem; umas vezes pela positiva, não raras ocasiões pela negativas e aqui e ali, única e exclusivamente, porque cada cabeça sua sentença e porque na verdade cada um vê o azul do mar da cor que quer.

Há alguns meses estive em Luang Prabang, no Laos, em grande parte por influência de quem já lá tinha passado e pelas imagens que fui vendo. E pelos relatos que me chegaram ao longo dos anos não hesitei em desviar por lá assim que tive hipótese. E em boa hora o fiz.

Tinha previsto lá ficar dois ou três dias e acabei por ficar uma semana. Rio Mekong acima, reservas naturais com cascatas cinematográficas e finais de dia acotovelados no cimo de uma colina, para ver o sol afundar-se pela serra, não deixei nada por fazer.

Mas a recomendação repetida de que tinha de acordar de madrugada para ver um ritual a que chamam Despertar dos Monges, causava-me duas sensações: de curiosidade e simultaneamente de grandes dúvidas em acordar ao raiar da aurora, ou ainda antes disso.

«Tens de ir, tens de ir», repetiram-me vezes sem conta antes de lá chegar. Tantas que eram quatro da manhã, quando se deu a alvorada no quarto do hotel.

Luang Prabang vive em harmonia com os vestígios do colonialismo francês, tempos budistas e comércio de rua, que se ergue nas ruas ao final do dia e se prolonga até cerca da meia-noite, hora a que, qual gata borralheira, desaparece de forma rápida e misteriosa, ficando as ruas tão limpas ou mais do que estavam. Tudo para que os monges possam pisar chão sagrado e limpo, logo pela manhã.

De volta ao que me arrancou da cama antes do primeiro cantar dos pássaros, o Despertar dos Monges é um ritual no qual estes saem dos seus templos para receber as doações de quem espera pela sua passagem junto aos passeios. Arroz, vegetais e fruta estão entre as principais ofertas que eles vão recolhendo em silêncio, sem nunca trocarem uma palavra com locais e turistas. Destas ofertas depende a sua única refeição diária.

Esta cerimónia diária e centenária, que dura cerca de uma hora e meia, termina com os monges a recolherem aos seus respetivos templos por volta das seis da manhã e impressiona sobretudo pelo silêncio em que decorre, mesmo nos dias de hoje, em que as ruas estão se vão enchendo de vendedores ambulantes.

Tendo em conta o modo de vida ocidental a que estou habituado, esta foi provavelmente das experiências mais humildes que presenciei em viagem. O que começou por ser um acordar com as galinhas – antes delas – mudou rapidamente para o acordar com os monges.

 

Textos e fotos: Luís Correia


(Se quer partilhar a sua história envie email para aproximaviagem@worldimpalanet.com)
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